Os Meninos Que Ninguém Pode Adotar

Mais de 80% das crianças em abrigos não estão disponíveis à adoção por não ser órfãs. Como mudar essa situação?
Martha Mendonça, com colaboração de Andres Vera

A voz grossa e o ar maduro não combinam com Anderson, 8 anos completados em maio, morador do abrigo Santa Clara, em Vargem Grande, zona oeste do Rio de Janeiro. “Será que demora muito para arrebentar?”, pergunta sobre a fitinha no pulso, dada por uma funcionária três dias antes. Anderson (nome fictício, como os de todas as crianças citadas nesta reportagem) não conta que pedidos fez ao Senhor do Bonfim, mas diz que quer ser jogador de futebol. “Jogo bem no ataque, mas vou ser igual ao Bruno, goleiro do Flamengo”, diz, enquanto esfrega os joelhos sujos da brincadeira no quintal. De manhã, Anderson vai à escola. Está no 2o ano de um colégio público vizinho. Orgulha-se de ser bom nas contas e de namorar duas coleguinhas. À tarde, faz os deveres e as aulas de capoeira. Livre das obrigações, corre para o quintal da casa grande, onde joga bola e sobe nas árvores, em meio a balanços e gangorras enferrujados. Sua preferida é uma jaqueira. Quando escurece, Anderson toma banho, janta – reclama quando não tem bife com ovo – e depois briga por um bom lugar nos sofás velhos da sala de televisão. Noveleiro, diz que também poderia tentar a vida como ator de novela. “É legal fingir ser outra pessoa”, afirma. Seu ídolo é Lázaro Ramos. Por volta das 23 horas, é hora de ir para a cama. Anderson dorme na parte de cima de um beliche, num quarto com mais cinco garotos, o rosto bem perto do teto pintado de verde.

A história de Anderson é igual à de milhares de crianças brasileiras. De cerca de 80 mil que vivem em abrigos do país, 87% não estão ali por ser órfãos. São meninos e meninas que têm referências familiares e, por isso, não estão disponíveis para a adoção. Vivem na fronteira entre duas possibilidades que anulam uma à outra s e transformam não só seu futuro, mas também seu dia-a-dia em incerteza.

Anderson chegou ao abrigo aos 5 anos, magro, calado e sem nunca ter ido à escola. Segundo a direção do abrigo, a mãe, alcoólatra, abandonou a família. O pai, ambulante, procurou um lugar provisório para o filho, enquanto tentava melhorar de vida. No começo, fazia visitas semanais. Depois, elas escassearam. Nos últimos quatro meses, o pai não apareceu mais. O espaço provisório virou o único lar de que o menino se lembra. Quando o assunto são os pais, o tagarela se torna monossilábico. É difícil falar sobre o que não sabe. A coordenadora do abrigo Santa Clara, Eliete de Castro, diz que o garoto se refere cada vez menos ao pai, embora mantenha a esperança de que ele venha buscá-lo. “Já houve vezes em que o pai telefonou, prometeu que viria e não apareceu”, afirma Eliete. Numa dessas ocasiões, o menino voltou a fazer xixi na cama. O afeto que existia em relação a ele aos poucos se transformou em silêncio.

Entre narizes sujos e dentes que faltam, vozes se sobrepõem, numa mistura de alegria e angústia pela chance de não ser apenas mais um. Por mais que tenham carinho dos cerca de dez funcionários do abrigo, que há 20 anos sobrevive de doações, os garotos querem atenção e têm a esperança de um dia ganhar um lar. A maioria está ali por causa da pobreza. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que em 2004 fez o único estudo sobre abrigos de crianças no Brasil, 24% delas são deixadas em instituições por pais sem recursos financeiros e 11% estão nelas porque sofreram violência doméstica. Pouco mais da metade (58%) ainda tem convivência esporádica com algum membro da família.

*edição da revista Época de 28/julho/2008.

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